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O QUE ESTÁ EM JOGO NO TURISMO DE BONITO

Passeios e agências e suas exclusividades de vendas de voucher, quem ganha com essa mudança?

Uma proposta em discussão quer permitir que os atrativos vendam passeios direto ao turista, sem passar por agência. É apresentada como liberdade de escolha. Os números de Bonito contam outra história.

16 Set 2026 - 16h18Por BONITO INFORMA / REDAÇÃO

BONITO - MS - Toda discussão pública tem uma pergunta que ninguém faz. Na discussão sobre o fim da exclusividade das agências de Bonito, essa pergunta é simples: se não for a agência local a vender, quem vai vender?

A resposta parece óbvia — o próprio atrativo. Mas não é o que acontece em nenhum destino que abriu as portas do seu inventário. Quem passa a vender é quem tem o tráfego, ou seja, quem já tem milhões de pessoas entrando no site todo dia. E esse alguém não está em Bonito, nem em Bodoquena, nem em Jardim. Está em plataformas globais de reserva.

Antes de chegar lá, porém, vale corrigir um mal-entendido que sustenta boa parte do debate.

O muro que já tem porta

A ATRATUR, associação que reúne atrativos de Bonito e região, tem 26 associados. Deles, 18 ficam em Bonito, 4 em Bodoquena, 3 em Jardim e 1 em Miranda. Quando se examina um a um, o quadro surpreende.

Dezessete dos 26 — quase dois terços — já vendem direto ao consumidor hoje. Nove atrativos de Bonito operam agência própria credenciada: Abismo Anhumas, Praia da Figueira, Balneário do Sol, Gruta Catedral, Cabanas Aventura, Bonito Scuba, Balneário Estrela do Formoso, Eco Park Porto da Ilha e Parque das Cachoeiras. E os oito atrativos de Bodoquena, Jardim e Miranda sequer estão submetidos à regra municipal de Bonito — comercializam livremente, ainda que usem o mesmo sistema de agendamento.

Ou seja: a regra que vem sendo descrita como um muro intransponível alcança, na prática, pouco mais de um terço da oferta associada. E não se trata de imaginar o que aconteceria se ela caísse. A venda direta já funciona em paralelo, no mesmo destino, há anos.

Quinze anos de resposta

E é justamente por já funcionar que se pode responder à pergunta central com dados, e não com palpite.

Os atrativos de Bonito que têm agência própria não começaram ontem. A maioria mantém a sua há mais de um ano. Vários há cinco. Alguns há dez ou quinze anos. É tempo mais que suficiente para saber o que a venda direta produz.

Em nenhum desses casos a visitação do atrativo aumentou por causa da venda direta. O que mudou foi quem ficou com a receita da intermediação.

A mesma quantidade de gente entrou no atrativo. O que se deslocou foi o dinheiro: em vez de remunerar uma agência independente, passou a remunerar a agência do próprio atrativo. Chamar isso de crescimento é impreciso. O nome correto é redistribuição.

Um mercado que parou de crescer em gente

Esse detalhe importa porque o destino, hoje, não tem para onde crescer em número de visitantes.

Os dados do Observatório do Turismo e Eventos de Bonito mostram um pico em 2023, com 313 mil visitantes, seguido de acomodação: 291 mil em 2024 e 294 mil em 2025. Quatro anos num mesmo patamar. E o teste mais revelador veio no ano passado: com a entrada da LATAM, os desembarques no aeroporto de Bonito subiram 34,7 % — e o número de visitantes subiu 1 %.

Nove mil passageiros a mais chegando de avião produziram menos de três mil visitantes a mais. A maior parte já vinha antes, só que por estrada. Facilitar o acesso é o teste clássico para saber se existe gente represada esperando uma chegada mais fácil. Não existia.

Isso não significa que o destino encolheu — ao contrário. Bonito recebe hoje quase 43 % mais visitantes do que antes da pandemia, e o mercado de passeios cresceu 31 % em termos reais só entre 2022 e 2025. Mas esse crescimento veio do preço, não do volume. O destino ficou mais valioso sem ficar mais cheio, que é exatamente o que se espera de um lugar que protege o que vende.

A conta que sobra

Junte as duas coisas e o retrato fica nítido. O número de turistas está estável. A venda direta, onde já existe, não trouxe turista novo. Logo, abrir o canal não vai aumentar o bolo.

Num mercado em expansão, cada empresa cresce sem tirar de ninguém. Num mercado de público estável, crescer significa, necessariamente, tomar de outro. Não há terceira possibilidade.

Aí está a resposta à pergunta do título. Ganham os que já têm canal próprio de venda, que passariam a disputar diretamente a fatia de quem não tem. E ganham, sobretudo, as plataformas globais de experiências, que hoje não têm acesso ao inventário de Bonito e passariam a tê-lo.

Não há nada de ilegítimo em uma empresa querer vender mais — é o que se espera de qualquer empresa. O que não é legítimo é apresentar uma disputa por participação de mercado como se fosse uma agenda de liberdade do consumidor. São coisas diferentes, e a cidade tem o direito de discutir a verdadeira.

Na próxima parte: o imposto do passeio fica no município onde o atrativo está. E boa parte dos atrativos vendidos por Bonito não fica em Bonito.

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