Existe uma regra tributária que quase ninguém conhece e que muda tudo nesta discussão: o imposto sobre serviço, o ISS, é recolhido no município onde o serviço é prestado. Não existe repasse entre cidades.
Parece detalhe de contabilidade. Não é.
O passeio é vendido em Bonito e tributado em Jardim
Pense num casal que se hospeda em Bonito, janta em Bonito, abastece em Bonito e compra, numa agência de Bonito, um passeio no Recanto Ecológico Rio da Prata ou no Buraco das Araras. Os dois atrativos ficam em Jardim.
O imposto sobre aquele passeio é recolhido em Jardim. Bonito não recebe um centavo dele — e Jardim não repassa nada.
Nesse caso, o imposto sobre o serviço da agência não é a maior parte do que Bonito arrecada da operação. É a totalidade.
Some a isso a taxa de conservação ambiental, cobrada por passeio e por dia em Bonito, que é gerida e recolhida por meio das agências locais. Sem agência na operação, não há quem a recolha.
Bonito, portanto, opera o sistema, sustenta o controle de visitação, absorve o turista e toda a pressão que ele exerce sobre trânsito, lixo, saúde e segurança — e, na parte do inventário que fica nos municípios vizinhos, arrecada exclusivamente sobre a intermediação. Tire a agência dessa cadeia e a arrecadação não diminui: vai a zero.
O que a série de arrecadação mostra
O Observatório não publica quanto do volume vendido pelo sistema de Bonito corresponde a atrativos de outros municípios. Mas publica a arrecadação dos três. E ela conta uma história.
Tomando 2022 como base e descontando a inflação do período:
Bonito: de R$ 21,8 milhões para R$ 21,5 milhões — queda real de 13,8 %.
Jardim: de R$ 4,9 milhões para R$ 7,0 milhões — alta real de 25,7 %.
Bodoquena: de R$ 3,1 milhões para R$ 3,9 milhões — alta real de 8,4 %.
A fatia de Bonito no total arrecadado pelos três municípios caiu de 73,2 % para 66,4 % em três anos.
É preciso honestidade com o dado: o ISS de cada cidade cobre todos os serviços, não só turismo. A série, sozinha, não prova migração de base turística. Mas é compatível com ela — e o município não tem como afirmar o contrário, porque o número que responderia à pergunta não é produzido. Quem defende mudar o modelo deveria, no mínimo, querer conhecê-lo antes.
Quanto custa a intermediação, afinal
Aqui vale abrir a caixa-preta, porque o setor tem sido tímido em falar dos próprios números — e a comparação o favorece.
As agências de Bonito são remuneradas com 20 % do valor do atrativo na maior parte dos casos, e 15 % em outros, como no Abismo Anhumas. As plataformas globais de experiências cobram mais: Viator, do TripAdvisor, opera entre 25 % e 30 %; a GetYourGuide, entre 20 % e 30 %; a Civitatis, entre 15 % e 25 %, negociando taxa menor em troca de exclusividade.
Sim: exclusividade. A mesma palavra que se critica em Bonito por razão ambiental aparece no modelo alternativo como cláusula comercial — e sem nenhuma contrapartida de conservação, de emprego local ou de imposto municipal.
Em 2025 o mercado de passeios de Bonito e região movimentou R$ 211,6 milhões, resultado de 880.669 visitações a um preço médio de R$ 240,29 por passeio. Sobre esse volume, os 20 % praticados localmente representam cerca de R$ 42 milhões que ficam na região. Uma taxa de plataforma entre 25 % e 30 % representaria de R$ 53 a R$ 63 milhões saindo dela.
O turista não pagaria menos. O dinheiro é que deixaria de pagar salário em Bonito para pagar dividendo em outro fuso horário.
E há um efeito colateral pouco lembrado. Todo o número de visitação que Bonito conhece — as 880.669 visitações de 2025, a série histórica inteira, o monitoramento da capacidade dos atrativos — existe porque há uma única cadeia de emissão de vouchers. Pulverizado o canal entre plataformas, o destino perde o instrumento com que mede a si mesmo.
Na próxima parte: num destino com dezenas de atrativos, alguém precisa decidir para onde vai cada turista. Quem faz isso hoje — e quem faria depois.
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