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Documentário dá voz ao povo Terena e transforma sementes em memória e resistência

Com cenas íntimas e depoimentos potentes, obra lançada em Bonito celebra a força do artesanato indígena

21 Ago 2025 - 09h43Por Redação/ Bonito Informa

As sementes guardam histórias. Cada grão colhido, furado e transformado em arte carrega não apenas a paciência das mãos que o moldaram, mas também séculos de sabedoria de um povo. Foi para revelar esse universo que nasceu o documentário “Saberes Ancestrais: Arte e Sementes”, lançado na Casa Memória Raída, em Bonito (MS), em uma noite aberta à comunidade. A produção também já foi apresentada em escolas de assentamentos e áreas periféricas, aproximando crianças e jovens da história e dos conhecimentos tradicionais.

Dirigido por Viviane Nunes, Diana Palacios e Alice Hellmann, o filme tem 48 minutos e mergulha na vida e na cultura do povo Terena, em Miranda, mostrando a força de um artesanato que é, ao mesmo tempo, sustento e resistência. A obra foi realizada com recursos da Lei Aldir Blanc — agora transformada em Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) — e já percorreu escolas de assentamentos e periferias, levando às crianças o encontro com uma identidade muitas vezes esquecida.

“Quando comecei, queria apenas mostrar o processo do artesanato com sementes: a colheita, o beneficiamento, a preparação para a peça. Mas, conforme a gente mergulhava, percebia que era muito maior: falava de apagamento cultural, de luta social, de sobrevivência”, conta Viviane Nunes, idealizadora do projeto.

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Essa dimensão ampliada se revela em cada cena: famílias inteiras reunidas em torno da produção, crianças aprendendo com os mais velhos e mestres artesãos que transformam o quintal em agrofloresta para garantir que as sementes não desapareçam.

Diana Palacios, que já convivia de perto com os Terena, reforça a importância de registrar esse processo:
“Não é só um colar ou uma pulseira. Antes da peça existir, há todo um trabalho: plantar, colher, furar, secar. E isso, muitas vezes, é a única fonte de renda. Só que o que vemos é exploração: vendem a preço baixíssimo, enquanto na cidade as peças são revendidas por valores muito maiores. Esse documentário também é um grito de consciência.”

Já para Alice Hellmann, a experiência foi também pessoal e transformadora:

“Olha, para mim foi muito especial estar inserida nesse projeto, porque meu retorno ao Mato Grosso do Sul foi em busca justamente dos povos ancestrais. Poder ouvi-los, com paciência e no tempo deles, foi único. O documentário tem esse ritmo lento porque acompanha a fala na varanda, a história contada à tarde inteira. Foram dois dias de captação, acampamos na casa do Arildo e da Dora, e toda a vizinhança nos recebeu de braços abertos. É um filme íntimo, que só foi possível pelo vínculo que a Diana já construiu com a comunidade e pela força da Vivi em transformar tudo em realização.”

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Alice destaca ainda que cada depoimento poderia dar origem a um novo filme. “Era para ser um curta, acabou virando um média-metragem. Cada fala é uma aula: sobre sementes, remédios, ancestralidade. E o mais bonito é perceber como a cultura é viva, em constante transformação. O cocar que hoje vemos pode ser um remix de outras culturas, criado por essa geração. O artesanato desperta em cada pessoa essa vontade de deixar o mundo mais bonito, como disse a Dora: quanto mais linda a filha fica com um brinco, mais ela quer criar outro ainda mais lindo. É esse ciclo de beleza, de preservação da terra, de compartilhar saberes.”

Memória viva

O documentário também expõe um desejo antigo e coletivo dos Terena: contar com espaços dignos para expor sua arte em cidades turísticas como Bonito. “Não pedem luxo. Querem apenas um espaço cultural de apoio, onde possam vender suas peças sem precisar dormir em praças ou depender de atravessadores”, lembra Diana.

Essa necessidade de valorização aparece com força na fala de Arildo Cebálio, artesão e mestre dos saberes, um dos protagonistas da obra. Para ele, a câmera trouxe não só visibilidade, mas também esperança:

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“O nosso trabalho é muito desvalorizado. A pessoa olha uma peça, acha bonita, mas quando falamos o valor, dizem que é caro. Ninguém pensa na dificuldade para extrair a argila, na distância, no esforço. O mesmo acontece com as sementes, cada vez mais raras por conta do desmatamento. Nós estamos replantando, tentando recuperar espécies para manter o artesanato vivo, mas não é fácil. Então, quando alguém faz um documentário sobre isso, a gente se sente valorizado, fica otimista. Esperamos que traga reconhecimento não só para o nosso trabalho, mas também para a proteção do nosso território, porque tudo passa por isso: arte, ancestralidade e vida”.

A visão do público

O impacto do filme não se restringiu aos artesãos. A estreia também sensibilizou quem acompanhou a projeção, como a espectadora Daniele B. Nascimento Rodrigues.
“Foi um privilégio poder assistir ao lançamento do documentário. Eu amei conhecer um pouco da cultura dos Terenas. O enredo foi muito interessante, entender todo o processo que eles fazem para construir sua arte — são meses, desde o plantio da semente até que o artesanato esteja pronto. A gente não tem ideia de quão trabalhoso é! Por outro lado, não tem como não se emocionar com as falas, que mostram nitidamente o apagamento dos povos originários”, destacou.

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Valorização e futuro

Mais do que registrar uma tradição, o documentário revela como o fazer artesanal é também um ato de resistência: ele envolve toda a comunidade, conecta gerações e assegura a continuidade da identidade cultural Terena.

Arildo reforça esse desejo de reconhecimento.

“A gente espera que esse filme tenha projeção, que ajude as pessoas a reconhecerem a importância do nosso trabalho e do nosso território. Para nós, povos originários, isso significa muito”.

Entre imagens delicadas e depoimentos potentes, o filme nos lembra que falar de sementes é falar de vida. E que proteger o artesanato indígena significa proteger não apenas a renda de famílias inteiras, mas a própria memória de um povo.

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