Menu
ITALÍNEA DOURADOS
segunda, 25 de junho de 2018
KAGIVA
Busca

Pesquisa: 77% dos moradores de Salvador fogem do carnaval

10 Mar 2011 - 11h35Por Terra

Os exageros númericos e outros pecados ufanistas costumam colorir a participação dos moradores de Salvador no Carnaval. Na contracorrente, uma pesquisa da Secretaria de Cultura (Secult) e da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI/Seplan) ajuda a medir o grau de envolvimento dos soteropolitanos e a esvaziar os clichês midiáticos sobre a festividade dos baianos.

Realizada em maio, junho e julho de 2009, a sondagem coletou informações da folia daquele ano, com entrevistados de 14 anos ou mais. Foram aplicados 6.677 questionários. De início, identifica-se um baixo de grau de envolvimento: 77% dos soteropolitanos (1,93 milhão) não comparecem a nenhum dos seis dias do evento; desses resistentes, 62,7% ficaram em casa e 14,3% viajaram. Isso não significa que tenham se livrado totalmente do impacto do Carnaval - seja pela montagem (e transtornos) da estrutura, seja pelas transmissões das TVs (7,3% assistem à cobertura).

Apenas 19% se divertiram em blocos, em camarotes e na "pipoca" (como são enquadrados os foliões que preferem curtir sem pagar nada pelas atrações musicais). Traduzindo, 478 mil almas baianas vão atrás do trio elétrico; 100 mil (4%) ficam do outro lado do balcão e trabalham durante o Carnaval. Nessa categoria de raladores estão as famílias de ambulantes que armam suas barracas nas franjas dos três circuitos momescos de Salvador.

O abismo social é mais perceptível nas bordas das avenidas, ao se radiografar os foliões espremidos pelos blocos de corda e pelos camarotes. Entre os "pipocas", registra-se a maior taxa de analfabetismo e 1º grau incompleto (23,1%); 47,1% declararam ter 2º completo e 3º grau incompleto. Para efeito comparativo, os iletrados representam cerca de 3% dos habitués dos camarotes.

Você não estará errado se apontar a insegurança como a principal queixa dos que fugiram do bate-barriga. "Para justificar esse comportamento, diversas razões foram apontadas: falta de segurança (47,1%), desgosto pelas atrações (8,9%), falta de dinheiro (7,9%) e diversos outros motivos (34,3%). Nesse caso, foram citadas cinco principais razões, por ordem de importância: limitações familiares diversas, proibição religiosa, problemas de saúde, oportunidade para descansar e desgosto pela festa", diz o relatório "Comportamento dos residentes em Salvador no Carnaval 2009".

No corte étnico, nenhuma surpresa: 85,1% dos foliões pipocas são negros; 14,9%, brancos. No andar de cima - o camarote -, a parcela de brancos sobe para 40,9%. Numa cidade de maioria negra ou parda, 59,1% dos frequentadores dos camarotes são negros. Uma lembrança, apenas: a pesquisa contabiliza os residentes em Salvador, e não os turistas, predominantemente brancos e usuários contumazes dos espaços VIPs, sub-VIPs ou quase VIPs.

Na viração dos trabalhadores da festa - de servidores públicos e cordeiros a seguranças particulares e ambulantes -, a lógica da Casa Grande & Senzala predomina. De quem são as mãos? 88,7% de negros. "Buscando traçar o perfil do trabalhador do Carnaval, verifica-se que este indivíduo é principalmente homem, de cor negra, com idade superior a 25 anos e não migrante".

Agora, as patacas, os caraminguás. O gasto diário médio de um pipoca estaciona em R$ 31,11; nos blocos, os baianos desembolsam R$ 162; nos camarotes, um pouco menos: R$ 112,62. E não se deve esquecer dos drinks e petiscos livres em camarotes como o "Daniela Mercury" e o "2222", pilotado por Flora Gil (neste último, o orçamento chegou a R$ 5 milhões; 1.200 convidados). Em 2009, o gasto total dos foliões beirou os 127,7 milhões. Há os camarotes pagos e os "de grátis", cujos convites são disputados por classes de A a Z.

"Vale salientar que nem sempre a renda mensal dos indivíduos está diretamente relacionada aos valores aplicados na festa. De um lado, o crédito disponibilizado por empresas, a exemplo da Central do Carnaval, ou via internet, possibilita à população de menor poder aquisitivo acesso aos blocos caros. De outro, a rede de relacionamentos dos indivíduos de maior nível de renda favorece a participação gratuita em blocos e camarotes patrocinados", descreve o relatório.

Em 2011, o governo da Bahia aplicou cerca de R$ 53 milhões no Carnaval de Salvador. Desse total, algo em torno de R$ 23 milhões para garantir a segurança. O show do milhão prossegue.

A prefeitura da capital arrecadou R$ 15 milhões com a venda das cotas de publicidade em espaços públicos para as empresas Samsung, Petrobras, Itaú e Schin, além do governo estadual (lotes superiores a R$ 3 milhões). Outros patrocinadores menores, em geral empresas de mídia, investiram cada um R$ 150 mil. A prefeitura terceiriza a passagem do chapéu. As agências do consórcio OCP/Mago abocanharam uma comissão de 20% - em grana, um trocadinho de R$ 3 milhões.

Os números milionários da festa e a pesquisa do governo baiano não condensam toda a realidade, mas ajudam a entender as nuances de poder no maior carnaval brasileiro. Quem manda, e como manda, exige uma outra radiografia.

Deixe seu Comentário

Leia Também

BONITO - MS - CULTURA
Bonito recebe 4ª edição da Feira Literária
BONITO - MS - AÇÃO DA 1ªCIPM/CPA-3
Polícia Militar recaptura foragido da justiça durante ação na madrugada em Bonito (MS)
PANTANAL
União reconhece situação de emergência em áreas inundadas no Pantanal
EMPREGOS
Exército abre vagas para músicos no 17º Batalhão de Fronteira
CRIME ORGANIZADO
PF faz operação contra célula do PCC em Mato Grosso do Sul e mais quatro estados
EXPANSÃO PARAGUAI
Obras públicas paraguais terão continuidade com mudança de governo
IVINHEMA
Veículo capota na MS-276 após condutor dormir ao volante
LEILÃO DO GOVERNO DO MS
Governo leiloa 43 lotes de veículos e sucatas nesta terça-feira, confira o edital
CAMPO GRANDE E JARDIM
Uems abre concurso para professores efetivos em Campo Grande e Jardim
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Padrasto acerta murro na boca de criança ao tentar agredir esposa