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28 de Abril de 2011 17h42

Pecuaristas temem que leilão não garanta liquidação das dívidas do Independência

Midiamax - Pio Redondo

Minoritários nas assembléias dos credores do Independência, onde os bancos atuam com força total, os pecuaristas do MS e do MT continuam descontentes com os rumos das negociações, mesmo com a decisão da realização de um grande leilão dos imóveis da empresa, decidido no último dia 3 de março. A quebra de confiança pelos sucessivos adiamentos dos pagamentos das dívidas é a causa do descrédito do empreendimento do suplente de senador Antonio Russo Netto e seus filhos.

Segundo o advogado da Famasul, que participa das assembléias de credores, "a negociação das dívidas vencidas desde 2009, que ultrapassariam R$ 3 bilhões, se dá como numa grande mesa de negociação, onde estão representados credores, a empresa, a juíza Adriana Nolasco da Silva e administrador fiducial, Fernando Chad".

"Os bancos, que têm maior peso, não eliminam a participação de outros credores, como os pecuaristas, mas, obviamente, têm muita força nas decisões porque suas dívidas são de dezenas e dezenas de milhões de reais", explica ele.

O advogado acrescenta que há uma expectativa diferente entre os dois setores, em relação aos prazos de pagamentos e a solução da crise do Independência.

"Os pecuaristas, que lutam para receber R$ 300.000 ou R$ 150 mil, precisam do dinheiro para comprar e vender mais bois, enquanto os bancos giram a dívida, colocam os papéis no mercado de títulos futuros, jogam o jogo de uma forma que não faz parte da nossa vida, de simples mortais", explica. "Com os sucessivos adiamentos dos pagamentos dos acordos, houve uma forte quebra de confiança da parte de quem tem orçamento e despesas mensais e não pode esperar", garante o advogado da Famasul.

Para o Dr. Armando Biancardini Candia, da Acrimat, do Mato Grosso, a situação é mais crítica. "Foi um adiamento depois do acordo que estava fechado, quase três anos de negociação, o boi entregue, e os pecuaristas só receberam uma parcela de R$ 100 mil. O parcelamento do restante em parcelas mensais de 24 meses, acordado, de repente parou no começo. Estamos agora diante de um leilão dos bens imóveis do Independência, que não sabemos no que vai dar, qual a continuidade".

Sobre a participação dos bancos, o advogado lamenta que os demais credores, pequenos, estejam desarticulados em função da distância do local das reuniões, em São Paulo. "Com bancos fortes, até internacionais, vamos pressionando para garantir a parte dos pecuaristas, mas tem que haver mais presença nas assembléias".

Apesar das críticas, para o advogado da Famasul, Dr. Carlos Daniel, "há sempre uma tendência de acordo, porque se não houver pactuação poderá ocorrer a falência, a liquidação da empresa, e todos perderiam ainda mais".

Ciranda financeira preocupa pecuaristas e advogados

O Independência pediu proteção contra a falência em fevereiro de 2009. A unidade de Campo Grande fechou nessa data, com dispensa de 400 trabalhadores. O plano de recuperação judicial foi aprovado pelos credores em dezembro do mesmo ano, e assim a empresa captou US$ 165 milhões em títulos no exterior, para capital de giro e pagamento de credores. Em setembro, o Independência informou que não honraria os juros dos títulos, que vencem só em 2015.

Sem capital novamente, as dívidas não foram pagas até que, em outubro daquele ano, o frigorífico parou as suas três unidades de Nova Andradina, Colorado d’Oeste , em Rondônia e Santana de Parnaíba, em São Paulo.

No mês seguinte, novembro, novo plano foi proposto aos credores, com venda de ativos, criação de uma nova companhia e conversão de parte da dívida em ações da nova empresa, para colocação no mercado, a fim de captar recursos.

Conforme a proposta, US$ 800 milhões da dívida seriam convertidos em ações. Sem acordo, a assembleia foi adiada por mais 180 dias até que, no dia 3 de março último, optou-se pela venda generalizada dos ativos da companhia, como instalações alfandegárias, fazendas e escritórios.

Para o advogado da Famasul, "ninguém ficou satisfeito porque a expectativa era que o plano anterior e o pagamento das parcelas tivesse sido cumprido".

Valores dos imóveis que irão a leilão são altos

As várias unidades do Independência que irão a leilão têm preço elevado diante do mercado imobiliário em que se inserem. Em Campo Grande, a unidade com 46 hectares está avaliada em mais de R$ 44 milhões. A área, que contém as instalações do frigorífico, fica nos limites do município, próximo ao trevo para Cuiabá e Três Lagoas. Portanto, também tem valor imobiliário, em função do crescimento da cidade.

Na matrícula 19.204 , do Cartório do 5° Ofício de Campo Grande, a unidade do frigorífico foi comprada pela família Russo por R$ 5.815.020,00 em 7 de fevereiro de 2007, e depois incorporado ao patrimônio do Independência S.A. Mais tarde, a área foi alienada ao BNY Mellon Serviços Financeiros,como garantia de um empréstimo de R$ 399.682.529,00 . A data do registro é 26 de março de 2010, dias antes do pagamento de parcela de R$ 100 mil aos credores.

Agora, mesmo alienada, a unidade poderá ser vendida no leilão com autorização judicial. Para o Dr. Carlos Daniel, isso só é possível porque credores internacionais, como bancos, compram imóveis e parte da dívida para negociar títulos no mercado de papéis mundo afora.

Outro lado

Com insistência, a reportagem tem procurado os donos e advogados do Independência para entrevistá-los, e trazer a público a sua versão dos fatos. Solicitação de entrevista foi deixada com a secretária do escritório de Antonio Russo Netto; o telefone da redação foi passado ao porteiro do edifício onde ele reside em Campo Grande, e entregue. Também houve telefonema para o escritório de advocacia de São Paulo, que representa o frigorífico nas assembléias de credores. Em todos, não houve retorno. A reportagem, aqui mesmo, reitera a solicitação à qualquer pessoa que fale em nome do Frigorífico Independência, mesmo que não seja o suplente de senador Antonio Russo Netto.

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