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Médica nega socorro, agride paciente e vai presa em SP

14 Set 2011 - 11h15

O serralheiro Jeisivaldo Anselmo dos Santos, de 36 anos, enfrentou ontem o que acredita ter sido os piores cinco minutos de sua vida. Após sofrer uma queda na escada de casa, às 11 horas, Santos foi resgatado por uma equipe do Corpo de Bombeiros até o Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro Saboya, no Jabaquara, zona sul, onde segundo ele, mesmo imobilizado numa maca, foi alvo de humilhações e tapas que partiram da médica de plantão. A cirurgiã Maria Cristina de Carvalho foi detida pela Polícia Militar e levada até o 26º Distrito Policial (Sacomã), onde acabou liberada horas depois. A Secretaria Municipal de Saúde informou que a profissional seria demitida hoje.

Santos disse que a médica parecia muito transtornada, se negou a prestar atendimento e chegou a ofender também um dos bombeiros da unidade de resgate, dizendo que ele só tinha levado a vítima naquele hospital por ser um lugar mais perto para ele. De acordo com a delegada Ancilla Vega, coordenadora da Central de Flagrantes do 26º DP, a médica foi ouvida durante a tarde e negou as acusações. Em depoimento Maria deu outra versão: disse que o paciente é que tinha sido agressivo com ela. Após as declarações, a médica assinou um termo circunstanciado (aplicado para infrações menos graves) e vai responder por omissão de socorro e injúria com “vias de fato”, quando ocorre alguma violência física.

Santos explicou que não havia ninguém na sala da médica e ela estava sentada sem fazer nada quando ele chegou ao lado de um dos bombeiros. Diante da situação ele disse que Maria teria discutido com o bombeiro. “Ela falou para ele que já tinha mandado fax para os bombeiros, dizendo que o hospital não podia mais receber paciente de resgate”, contou o serralheiro. Em meio à discussão, Santos se irritou. “Você não vai me atender. Devia estar em casa então”, reclamou. “Mas aí ela mandou calar a boca. Falei para ir lavar a louça e ela tentou me bater várias vezes, eu me protegi com os braços”, afirmou. “Eu me senti um nada, um lixo, pago meus impostos”, disse.

Um dos bombeiros que participou do resgate de Santos confirmou as agressões. “Eu tinha autorização para entrar com o resgate no hospital. Tomei todo cuidado para imobilizar o paciente, levei ao hospital, mas ela não queria atender”, disse. “Ele (Santos) estava com colete cervical, se levantou no meio da discussão. E se tivesse uma fratura mais grave seria pior?”

A assessoria de imprensa da Polícia Militar informou que os bombeiros agiram corretamente e que as viaturas de resgate recebem autorização para encaminhar pacientes aos hospitais ligados ao Centro de Operações dos Bombeiros (Cobom). Essa não teria sido a primeira vez que a médica agiu dessa forma. Segundo bombeiros, ela costumava ficar irritada quando tinha de atender pacientes no dia a dia. “A gente fica chateado com essas coisas. Não se pode negar atendimento para ninguém. Nunca vi isso”, comentou um dos bombeiros. A Secretaria e Saúde disse que Santos foi atendido logo em seguida. Na delegacia, a médica não quis falar com os jornalistas e tentou agredir o fotógrafo do Grupo Estado, batendo com uma das mãos na câmera. Antes teria ofendido um policial civil.

Sindicância irá apurar conduta de profissional

Uma investigação para saber se a médica Maria Cristina de Carvalho tinha condições emocionais para trabalhar e também para descobrir por qual motivo ela surtou antes de agredir o paciente que tinha acabado de dar entrada no Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, no Jabaquara. É o que defende a presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Jadete Barbosa Lampert. "É preciso apurar quais são as condições de saúde e de trabalho dessa médica", afirmou Jadete.

De acordo com a presidente da Abem, a médica acusada de agressão tem de passar por uma avaliação psicológica. "Pelo caso que você me contou, dá para perceber que ela não estava em condições emocionais para atender um paciente. Ela precisava ser encaminhada para receber atendimento psicológico, pois pode estar com algum problema", disse Jadete, que condenou a agressão. "É uma coisa indesejável, principalmente para o paciente, que precisava do auxílio médico", afirmou.

Na opinião de Jadete, um local de trabalho inadequado também pode contribuir para agravar a situação. "A gente vê profissionais de saúde trabalhando estressados, o que pode provocar esse tipo de situação lamentável. É necessário verificar se as condições de trabalho são adequadas para o profissional realizar um bom trabalho. Se o espaço para a consulta é confortável e se a médica conta com um grupo de profissionais para ajudar no atendimento de uma demanda específica, principalmente em uma unidade de emergência", observou Jadete.

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) informou, por meio de sua assessoria, que vai abrir uma sindicância para apurar a conduta da médica. O JT tentou falar com o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Cid Carvalhaes, mas ele não atendeu as ligações.

Jeisivaldo dos Santos: ‘Me senti um nada, um lixo’

Por que foi ao hospital?

Eu caí da escada segurando minha filha de um ano e sete meses no colo. Acabei sentindo dores fortes no corpo e tontura. Minha mulher chamou o resgate dos Bombeiros, que me deu toda a atenção. Mas quando cheguei ao hospital a médica começou a bater boca com o bombeiro.

O hospital estava cheio?

Não. Na sala da médica não tinha ninguém. Ela só estava sentada. O bombeiro disse para ela: ‘o rapaz caiu, atende ele’, mas a médica começou a falar que ali não tinha ortopedista e que o bombeiro tinha me levado lá só porque era perto para eles.

E depois?

No meio da discussão eu já estava sentindo muita dor e não aguentei vê-la tratando o bombeiro daquele jeito. E eu ali na maca perguntei se ela não ia me atender. Depois chegou meu filho de 14 anos segurando a minha filha, que também precisava de atendimento. Mas ela botou eles para fora da sala.

E o bombeiro?

Eu sei que ele chamou a Polícia Militar, que chegou e levou a médica para a delegacia. Ela não queria ir, não. Mas acabou vindo no carro dela.

E depois o senhor foi atendido?

O pediatra atendeu minha filha e depois me atendeu, deu tudo certo. Mas eu me senti um nada, um lixo. Eu pago os meus impostos. Acho que a médica estava desequilibrada.

Ficou com trauma do hospital?

Olha, já passei por coisas parecidas lá, mas como minha mulher está grávida e fazendo o pré-natal no hospital eu vou dar um voto de confiança. O diretor de lá veio falar comigo, me pediu desculpas e agora está tudo certo. Só acho que não pode ficar assim, porque ela pode voltar a tratar outras pessoas desse jeito.

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