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Boi zebu tem genoma 100% mapeado

10 Ago 2011 - 08h29Por Estadão.com

Foi divulgado na segunda-feira, na Reitoria da Unesp, em São Paulo (SP), estudo inédito que concluiu o sequenciamento genético da principal raça bovina do Brasil, o nelore. Com o mapeamento de 100% do genoma da raça zebuína, que é a principal criada em terras brasileiras, com 90% do rebanho, ganha-se uma importante ferramenta para ajudar a melhorar a seleção genética, até então feita com base em informações fenotípicas (externas) de cada animal.

“Há 100 anos, a seleção de zebuínos é feita ‘no olho’. A partir de agora, o ganho genético torna-se muito mais rápido, porque não será mais necessário, por exemplo, ter de abater um animal para conhecer as características da carne. Informações como qualidade da carne, por exemplo, poderão ser conhecidas a partir de um embrião”, explicou o médico veterinário José Fernando Garcia, da Unesp de Araçatuba (SP). Garcia é coordenador do projeto, junto com o pesquisador Tad Sonstegard, do Agricultural Research Service (ARS) e do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Com aporte de US$ 500 mil – provenientes da Unesp, Ministério da Agricultura e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) –, o projeto Genoma Nelore começou em junho de 2009, logo depois da conclusão do genoma de referência taurino – a vaca Dominette, da raça hereford –, e foi encerrado em julho deste ano. O estudo originou o sequenciamento completo de uma das duas principais subespécies bovinas, a Bos primigenius indicus.

Para se chegar a esse genoma de referência, os pesquisadores buscaram um animal 100% zebuíno, produtivo e endogâmico, ou seja, um animal resultante de vários cruzamentos entre indivíduos do mesmo grupo. Encontraram em Birigui (SP) um exemplar da linhagem Golias que se encaixou no perfil. O touro escolhido para representar essa subespécie chama-se Futuro POI do Golias, do projeto Nelore do Golias. “Essa linhagem foi subutilizada no Brasil”, diz o pecuarista Flávio Teles de Menezes, do Nelore do Golias, que investe em seleção de linhagens da raça e foi parceiro do projeto.

“Para os pecuaristas comerciais, essa ferramenta vai ajudar a melhorar a seleção genética do rebanho, com muito mais agilidade. Vai passar de uma avaliação subjetiva para algo comprovado”, disse Menezes. Feita a identificação do animal, foi extraído o DNA e todo o processo de sequenciamento foi realizado nos Estados Unidos, com a colaboração da Universidade de Maryland.

No campo, de acordo com Garcia, a pesquisa torna viável melhorar a qualidade da carne e aumentar a produtividade sem o aumento do número de animais do rebanho e sem a expansão da área de pastagem. Além disso, explica, pode ajudar o pecuarista a tomar decisões estratégicas, como descarte de animais ou na opção por confinamento.

“Ideal é que essas informações sejam aproveitadas por meio dos programas de melhoramento genético, como os que já existem. Caso contrário, corre-se o risco de a informação se perder”, disse o professor da Unesp. Ele explicou que a carne bovina brasileira não tem padrão, como ocorre com as carnes de frango e suínos. “A seleção de hoje baseia-se no histórico do animal, entre outros critérios.” Hoje, 90% da carne produzida no Brasil é oriunda de animais zebuínos.

“O objetivo da pesquisa é apresentar um genoma de referência de um animal zebuíno, tão adaptado às regiões tropicais.” Hoje, o chip usado pela pesquisa tem um custo de US$ 200 por animal (a ferramenta SNP chip, de alta densidade, tem a capacidade de testar cerca de 700 mil pontos do genoma, por meio da análise do DNA de um animal, revelando as diferenças existentes entre raças e indivíduos). Para tornar a ferramenta acessível para o pecuarista, estuda-se a possibilidade de utilizar um chip com menos marcadores, hoje a um custo de US$ 40/animal.

Com o conhecimento do catálogo completo das duas subespécies – Bos primigenius taurus e, agora, do Bos primigenius indicus, será possível desenvolver novos testes de DNA para selecionar os melhores animais dentro de uma população e, com isso, identificar a existência de características importantes, como maciez, distribuição de gordura padronizada, resistência a parasitas e doenças e tolerância ao calor. “A tecnologia também abre espaço para novos produtos, agora certificados e rastreados”, diz Garcia.

Além da Universidade de Maryland, nos EUA, a Università Cattolica Del Sacro Cuore, na Itália, também participou do projeto. As informações do sequenciamento são públicas e estão disponíveis no portal do National Center for Biotechnology Information (NCBI). 

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